Médica do Sírio-Libanês esclarece relação entre pancreatite e canetas emagrecedoras
O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” voltou ao centro do debate após questionamentos sobre possível relação com casos de pancreatite. Para esclarecer o tema, a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, do Hospital Sírio-Libanês, explicou quais são os riscos e os critérios corretos de indicação dessas medicações.
Os medicamentos pertencem à classe dos agonistas do receptor de GLP-1 e são indicados principalmente para tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Nos últimos anos, também passaram a ser amplamente utilizados para emagrecimento sob prescrição médica, o que ampliou o debate público sobre seus possíveis efeitos adversos.
Obesidade é doença multifatorial
Durante a entrevista, a médica reforçou que a obesidade não se resume apenas à alimentação e envolve fatores genéticos e metabólicos.
“Tem a genética, tem a tendência, tem a dificuldade. Tem famílias ou pessoas que comem muito e não engordam, e tem pessoas que comem pouco e não conseguem emagrecer”, afirma Claudia Kalil.
A especialista destacou que a obesidade é reconhecida como doença crônica e está associada a maior risco de complicações metabólicas, incluindo diabetes e doenças cardiovasculares, o que justifica a indicação médica adequada.
Quais são os critérios de uso?
Segundo a especialista, os benefícios são comprovados, mas o uso não pode ser indiscriminado.
“É uma medicação que traz muitos benefícios, mas tem critérios de uso. O principal critério é que a pessoa tenha indicação pelo diabetes ou pela obesidade, que já é uma condição de maior risco dessa pessoa desenvolver pancreatite”, explica Claudia Kalil.
A médica reforça que o tratamento deve estar associado a diagnóstico clínico claro e acompanhamento profissional, não sendo recomendado apenas para fins estéticos sem avaliação adequada.
“Quando você chega no peso que para você está adequado, está estável, e você já não precisa tanto do efeito da caneta, eu reduzo essa caneta na dose mínima e espaço o uso”, conclui.
A conduta reforça que o acompanhamento médico é essencial para definir início, manutenção e redução do medicamento.
Existe risco de pancreatite?
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode provocar dor abdominal intensa, náuseas e vômitos, podendo evoluir para quadros mais graves. A condição está descrita como possível efeito adverso nas bulas dos medicamentos, porém é considerada rara.
De acordo com a endocrinologista, os estudos científicos disponíveis até o momento não comprovam relação causal definitiva entre o uso das canetas e o desenvolvimento da doença. Ainda assim, pacientes com histórico de pancreatite ou cálculos biliares devem passar por avaliação criteriosa antes de iniciar o tratamento.
A endocrinologista recomenda começar com doses baixas e aumentá-las gradualmente. “Às vezes eu tenho que tratar o triglicérides junto com o início da utilização da caneta, eu tenho que reduzir a ingestão de álcool para usar a caneta“, explica. Outro ponto importante destacado pela médica é que, se o paciente interromper o uso da medicação e depois retomá-lo, não deve voltar com a mesma dose alta anterior, pois isso pode sobrecarregar o pâncreas.
Além dos critérios clínicos já mencionados, especialistas reforçam que a avaliação de risco para pancreatite exige análise do histórico completo do paciente. O consumo frequente e prolongado de bebidas alcoólicas ao longo dos anos é um dos principais fatores associados à doença, especialmente quando ocorre de forma recorrente por longos períodos. Da mesma forma, hábitos alimentares marcados por alto consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras e conservantes, contribuem para alterações metabólicas progressivas. Por isso, a investigação médica considera todo o histórico de saúde e estilo de vida antes de estabelecer qualquer relação isolada com o uso de medicamentos, evitando conclusões simplificadas sobre causas únicas.
No Brasil, os medicamentos são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que monitora continuamente a segurança por meio de sistemas de farmacovigilância.
Uso responsável é fundamental
O aumento da procura por medicamentos para emagrecimento reforça a necessidade de acompanhamento médico individualizado. Especialistas alertam que a automedicação ou o uso sem indicação adequada pode trazer riscos à saúde.
O MT em Alta acompanha temas de relevância nacional com base em fontes médicas qualificadas e informações verificadas, reforçando o compromisso com a responsabilidade editorial e com a orientação segura da população em assuntos que envolvem saúde e tratamento medicamentoso.
Fonte: Entrevista da endocrinologista Claudia Cozer Kalil, do Hospital Sírio-Libanês, à CNN Brasil









